Uma receita não é só uma receita!

Para a Daniela Rosendo, filósofa, educadora, doutora em Ética e Política e um dos maiores nomes no cenário do ecofeminismo no Brasil, comer é um ato político. Por isso, ela escreveu o posfácio de “Cozinha de protesto“, lançamento da Editora Alaúde. Confira um trecho:

Os impactos da alimentação são muitos: nos animais, no clima, nos direitos humanos. Comer é, sem dúvida, um ato político. Por isso, uma receita não é só uma receita. A escolha de cada ingrediente que compõe nossas refeições acarreta impactos, sejam negativos, sejam positivos. É nesse sentido que defendo o veganismo como uma prática de cuidado, isto é, inserido em um projeto ético-político ecofeminista animalista. Esse veganismo político faz parte de uma práxis antiespecista que reconhece a conexão entre diferentes ismos de dominação. Se olharmos só para a questão dos animais, não daremos conta de superar essa opressão porque ela está inserida em um sistema que opera outros ismos concomitantemente: racismo, machismo, capacitismo, heterossexismo. Olhar para isso tudo ao mesmo tempo pode ser assustador, mas também a chave para construirmos relações mais justas. É alimentar a utopia.

Dessa forma, temos que disputar a própria concepção de veganismo e situá-lo em um projeto descolonial e anticapitalista. Fazemos isso quando defendemos um veganismo político, popular, periférico, que compreende a centralidade da emancipação de todos os sujeitos e grupos oprimidos e subalternizados pelo colonialismo, patriarcado e capitalismo. Além de compreender que a culinária é um campo de reprodução dos ismos de opressão, por meio da manutenção e reprodução da cultura opressora, a libertação não é dada por quem está no lugar de poder, mas conquistada por quem se liberta.

Olhar para esse aspecto político do veganismo nos leva também para outro aspecto fundamental. Não devemos resumir a práxis vegana às escolhas individuais. Ser vegana, vegane ou vegano é, sem dúvida, uma escolha ética, no exercício da liberdade e da responsabilidade individual. Por isso, inclusive, só faz sentido onde existem condições materiais para escolher do que nos alimentamos. Dependendo do contexto social, político e geográfico, essas condições são mais ou menos favorecidas e, quando possível, devem ser criadas.

Adams e Messina chamaram bastante atenção para isso ao tratarem da justiça alimentar e apontarem para a criação de soluções locais e comunitárias. No Brasil, país que havia sido retirado do mapa da fome por políticas públicas e que agora é posto de volta por negligência deliberada, escolher o que comer pode parecer privilégio, mas talvez seja justamente o contrário. Ao escolhermos alimentos produzidos de forma ética e justa com os animais, as/os trabalhadoras/es e a terra, deixamos de compactuar com a necropolítica e nos comprometemos com práticas que nos aproximam de um bem viver.

Sendo parte da cultura, como já mencionei antes, a alimentação é uma das formas de manter e reproduzir estruturas de opressão baseadas no gênero também. Na sua longa trajetória, Adams vem contribuindo com essa temática e não deixa isso de lado em Cozinha de protesto, na companhia de Messina. Ao resgatar a política sexual da carne, as autoras mostram o quanto os binarismos (inclusive de gênero: homem/mulher, masculino/feminino, humano/animal) criam uma noção de feminilidade associada à passividade, sexualização e objetificação dos animais e como isso pode impactar em especial as fêmeas de outras espécies. No entanto, é muito importante ressaltar que essa projeção de feminilidade não implica, necessariamente, em reduzir a existência de quaisquer seres – sejam humanos, sejam outros que não humanos – à binaridade de gênero. Como ensinam as ecofeministas queer, como Greta Gaard e Catriona Sandilands, há uma diferença importante entre identificar como os dualismos operam na sociedade e projetar essa visão binária e cisheteronormativa nas relações socioambientais e interespécies.

Ademais, da perspectiva política, é importante lembrar também da divisão entre o público e o privado, entre o trabalho produtivo e o trabalho reprodutivo. Este último, associado às atividades de cuidado, marca também práticas de segregação racial, a cozinha como espaço das mulheres e o confinamento dos animais, como Adams e Messina expuseram. Assim, ressignificar a alimentação a partir do projeto ético-político ecofeminista passa também por entender que a alimentação compõe uma dimensão importante do cuidado não só dos outros, sob responsabilidade das mulheres no sistema patriarcal e capitalista, mas também do cuidado de si. Cozinhar pode ser uma forma de autocuidado e de exercício de autonomia relacional, tendo em vista que somos interdependentes e ninguém vive absolutamente de forma independente.

Por fim, queridas pessoas leitoras engajadas, eu lhes convido: alimentem a revolução, uma refeição por vez.


O texto na íntegra você confere em “Cozinha de protesto“, o primeiro livro que mostra como uma alimentação mais natural pode desafiar os retrocessos na política, fortalecer a resistência e possibilitar transformações.