Entrevista com as criadoras do podcast Outras Mamas

Semana passada, compartilhamos com vocês a novidade de nossa parceria com o podcast Outras Mamas, que resultou em um episódio especial. Aproveitamos a ocasião para conversar com as criadoras Barbara Miranda e Thais Goldkorn sobre como surgiu o podcast, a relação delas com o veganismo e os planos para os próximos episódios. Confira a entrevista!

Como o veganismo surgiu na vida de vocês?

Thais: Para mim, foi a partir do documentário Cowspiracy que assisti em 2016. Me tornei vegana na mesma hora, sem transição, sem nem passar pelo ovolactovegetarianismo. Analisando hoje, com certo distanciamento, percebo que foram vários fatos e construções durante toda a minha vida, e o documentário foi só a última ficha. Sempre tive uma relação de muito carinho com os animais e um senso muito forte de justiça, desde muito pequena. Juntar as duas coisas foi questão de tempo, com um empurrãozinho do documentário.

Barbara: Já pra mim surgiu como curiosidade sobre a questão da saúde. Eu já conhecia um vegano, mas achava que não fazia sentido, então demorei uns seis meses entre a minha primeira semana como vegana até tomar a decisão definitiva. Durante esse tempo, assisti documentários, pesquisei as práticas de exploração animal e fui testando o quanto conseguiria mudar minha alimentação e evitar o consumo de produtos de origem animal. Foi mais fácil do que eu imaginava.

Como se deu o primeiro contato de vocês com o livro A política sexual da carne?

Barbara: Eu já era vegana quando meu companheiro comprou o livro para uma amiga feminista que tinha vontade de parar de comer carne. Ainda não tinha lido, mas tinha ouvido falar que era muito bom, assim o livro entrou na minha lista de leitura e lá ficou uns seis meses antes que eu o colocasse como prioridade. Quando conheci a Thais, estava na metade da leitura, e o podcast foi o impulso de que eu precisava para terminar, fazer resumos e não parar de falar dele até hoje.

Thais: Logo nos meus primeiros meses de veganismo, ouvi falar do livro em grupos veganos de Facebook. Só o título já me deixou curiosa. Ainda não sabia nada sobre a teoria, só me lembro de comentários nos grupos sobre o livro ser a bíblia do veganismo e ter relação com o feminismo. Como feminista e recém-vegana, fui correndo garantir meu exemplar. Devorei o livro rapidinho e fiquei obcecada pelo tema. Comecei a pesquisar resenhas e outras referências para me aprofundar mais, e estamos aí até hoje falando sobre ele, não só no Outras Mamas, mas em outros podcasts como convidadas, em eventos, encontros e onde mais conseguirmos falar.

A relação entre feminismo e veganismo era algo em que vocês já pensavam?

Nunca tínhamos feito a relação entre as duas pautas até ler o livro. Como a própria Carol (Carol J. Adams, autora do livro) fala: meu vegetarianismo tinha pouca coisa a ver com o meu feminismo, ou pelo menos era isso que eu pensava. Lógico que ambos os posicionamentos foram motivados pelo senso de luta contra opressão, violência, objetificação dos corpos, mas foi só a partir do livro que as percepções tomaram forma com teoria engajada.  A política sexual da carne é o tipo de leitura que se conversa com a autora e a cada parágrafo você pensa: “Sim, é isso mesmo!” A autora só organiza uma percepção que já estava aqui e traz, através de referências históricas, a explicação para tudo o que já pensávamos de alguma forma. Você termina a leitura se sentindo menos sozinha. Ao longo da leitura, fomos percebendo várias reflexões que já existiam na gente e terminamos nos sentindo menos sozinhas, pois são coisas que se conectam com a nossa experiência cotidiana como mulher e como vegana.

Como surgiu a vontade de passar da leitura individual para a experiência coletiva do podcast?

Nós duas estávamos lendo o livro, quando a Thais deu a ideia de fazer um clube de leitura, mas tínhamos receio de que ficasse muito restrito ao centro de São Paulo. O podcast pareceu um jeito melhor de alcançar mais pessoas. Deu mais certo do que esperávamos, e hoje mais de sete mil pessoas já ouviram a palavra da Carol J. Adams desde a nossa primeira temporada. Nossa vontade é que cada vez mais pessoas tenham acesso às reflexões que Carol traz no livro, que já completou 30 anos e continua extremamente relevante.

Como foi a repercussão dos primeiros episódios?

Acho que surgimos num momento de carência de podcasts veganos, o que acontece até hoje, e o tema do livro ainda é muito pouco explorado na internet. Contamos com a divulgação de muitos colegas ativistas e comunicadores e logo um público grande já estava falando da gente. Com certeza foram os grupos e perfis veganos os grandes responsáveis pela nossa divulgação inicial, e a aceitação foi muito positiva desde o começo! E até hoje nosso público mais fiel e engajado são mulheres veganas ou em transição.

Vocês imaginavam que haveria tanta gente interessada na combinação desses dois assuntos específicos — veganismo e feminismo?

Já imaginávamos, mas não tínhamos a certeza. Foi muito curioso ver tanto mulheres veganas se descobrindo feministas quanto mulheres feministas que entram em transição para o veganismo ao escutar o nosso podcast. Nós gostamos de pensar que a responsabilidade por essas mudanças não é totalmente nossa, mas que o podcast é a ficha que cai para as pessoas que nos ouvem, assim como o Cowspiracy foi para a Thais lá em 2016.

Em que medida o livro continua presente na vida de vocês e no podcast?

Ah, ainda muito! A gente costuma brincar que o livro foi porta de entrada para leituras mais profundas. A partir dele, começamos a ler mais sobre ecofeminismo, afroveganismo, política, descolonização da alimentação e muitos outros temas que hoje fazem parte do nosso discurso. Estamos sempre aprendendo e buscando outras teorias para nossa prática diária e para o podcast e voltamos sempre ao livro como referência para relembrar os conceitos básicos.

Todos os episódios são tão relevantes, mas existem algum (ou alguns) que marcaram mais? Ou que tiveram mais repercussão?

Barbara: Nossa, pergunta difícil! Temos vários, mas, como vamos mudando junto com os episódios, nossas preferências vão mudando também. Atualmente, o meu preferido (Barbara) é o #74  -  É chuchu ou camarão?, com Thallita Flor e Ruan Felix, porque precisamos voltar mais para a cozinha neste momento de necessidade do cuidado em que estamos vivendo.

Thais: O meu é o #76 — Um mundo sem testes em animais, com Bianca Marigliani. Além da importância do tema, meu favorito sempre vai ser o mais recente lançado, porque no processo de produção, gravação e lançamento ficamos muito envolvidas com o episódio.

Os que tiveram e ainda tem mais repercussão são os #29 – Be-a-bá do veganismo, #14 – Sandra Guimarães e seu olhar sobre as opressões e #47 – Não-monogamia, com Isabela Saldanha e Sandra Guimarães. Deu para reparar que a Sandra Guimarães é nossa musa né? (risos)

Quais assuntos vocês ainda gostariam de abordar?

Temos uma lista bem grande de futuros temas e vamos puxando-os à medida que conseguimos construir um roteiro consistente, ou o tema é pauta atual na internet, ou conseguimos chamar alguma convidada para falar sobre ele. Queremos muito falar sobre alimentação tradicional dos povos originários na América do Sul, gordofobia, bem viver e agroecologia.

O que podemos esperar para os próximos episódios?

Estamos em um momento de reestruturação do podcast e dos tipos e formas de conteúdo que queremos abordar em todas as redes. Como estamos em um momento político e social muito delicado, buscamos intercalar assuntos mais leves com temas atuais, mas para os próximos episódios já temos como prioridade trazer os temas que citamos acima com maior representatividade e diversidade de convidadas.