Que tal pensarmos melhor o convívio entre onívoros e vegetarianos?

Em fevereiro, o jornal britânico The Guardian publicou um post  sobre a relação entre empregados vegetarianos e onívoros em escritórios ingleses e quais orientações a Vegan Society fornece para melhorá-la. O texto breve faz ver como pode ser dificultoso para vegetarianos dividir espaços de convívio com uma maioria onívora. Virar alvo de piadas ou de atenção em demasia, ter produtos roubados e gastar em dobro por isso, a comida ser contaminada por produtos de origem animal – rola de tudo.

Ainda, em março a BBC News Brasil também publicou uma matéria sobre a convivência entre onívoros e vegetarianos, mas focalizando a “onda de ódio” surgida contra os veganos com a ascensão da dieta nesses últimos anos. E deu especial atenção a um episódio ocorrido num mercado vegano em 2019, em que um homem comeu um esquilo morto cru em frente a todos como forma de protesto pró-carne. O título da matéria: “O que explica o ‘ódio irracional’ aos veganos?”

Ambos os textos são bem-sucedidos em despertar a mesma inquietude: por que é tão dificultoso conviver em harmonia com aqueles que mantêm hábitos e estilos de vida diferentes dos nossos? E qual seria o caminho para essa harmonia?

Saber que existe opção por uma alimentação que não envolva carne e que não represente prejuízo à saúde talvez coloque aos amigos onívoros uma questão difícil de lidar, no mínimo: como justificar, sem o argumento da imprescindibilidade, o consumo de produtos cujo processo de fabricação industrial envolve violência aos animais? A questão, de fato, é sensível e sem dúvida mexe com a subjetividade de quem de repente se depara com ela. Afinal, o consumo da carne está tão entranhado a nossa cultura e hábitos que muitos de nós sequer pensamos à respeito – isto é, até que a simples presença de uma pessoa com uma dieta diferente, convivendo conosco, nos obrigue.

Quando uma questão assim é colocada, pode gerar sentimentos desagradáveis, e o autoquestionamento por si só pode ser angustiante. Não é novidade que mudança de hábitos e repensar toda uma vida de escolhas não é fácil. No entanto, é necessário lembrar que veganos e vegetarianos não podem ser culpabilizados pelos sentimentos que o consumo de produtos industrializados de origem animal pode passar a provocar, quando repensado.  Temos que ser capazes de nutrir, ao menos, empatia por aqueles com dietas diferentes: afinal, será que aquele seu colega vegano está pesando em cima de você mesmo, ou será que você anda projetando sem querer suas novas preocupações e questões? Aqui, um momento de autocrítica e reflexão honestas é bem-vindo. 

E nunca se sabe: esse seu colega vegetariano pode te ajudar, apenas com o lembrete diário que a presença dele representa, a desautomatizar seu olhar para a sua alimentação. Como e o que você come têm sido escolhas realmente saudáveis para você? O consumo excessivo de carne é associado a um risco maior de desenvolvimento de doenças cardiovasculares, por exemplo. Às vezes, apenas precisamos do contato com o diferente para aprender coisas novas sobre nós mesmos.  

E os veggies não estão isentos dessa responsabilidade, não: toda escolha deve ser respeitada, ainda que represente uma oposição às nossas. Afinal, nunca sabemos o que pauta as escolhas individuais de cada um, e como essas escolhas são executadas. A questão da alimentação, o que consumimos, os sabores e os cheiros, são todos assuntos ligados à cultura, ao emocional, à memória e à história de cada um – o que faz com que o simples hábito de consumir um produto carregue muito significado. 

Talvez, o caminho para um convívio melhor entre vegetarianos, veganos e onívoros seja exatamente este: em vez do caminho da resistência, o da curiosidade e empatia em relação ao diferente.